sábado, 12 de fevereiro de 2011

Ostra Feliz Não Faz Pérola!!!

Ostras são moluscos, animais sem esqueletos, macias, que são as delícias dos gastrônomos.

 Podem ser comidas cruas, de pingos de limão, com arroz, sopas. Sem defesas - são animais mansos
- seriam uma presa fácil dos predadores.
Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes.
Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas, saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música.
Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário...
Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste... As ostras felizes riam dela e diziam:
"Ela não sai da sua depressão..."
Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía.
E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor.
O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza,
arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava
o seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho - por causa da dor que o grão de areia lhe causava.
Um dia passou por ali um pescador com seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-a para sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras.
Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro da ostra.
Ele tomou-a em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade; era uma pérola, uma linda pérola.
Apensa a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou a pérola e deu-a de presente para a sua esposa. “Ela ficou muito feliz...”
Ostra feliz não faz pérolas!!!
Isso vale para as ostras,e vale para nós, seres humanos.
No seu ensaio sobre O nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzche observou que os gregos, por oposição aos cristãos , levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo.
A resposta que encontrou foi à mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo
porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável.
A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas.
São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer.
Sofrimento que faz pérola, raramente é sofrimento físico...
Na maioria das vezes são dores da alma!!!
(Rubem Alves)

Nenhum comentário: